No segundo semestre de 2005, no departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, foi ministrada, no curso de Pós-Graduação em História Social, a disciplina "História Sociocultural do Futebol". Naquela ocasião, reuniram-se alunos de diversas áreas do conhecimento, com diferentes abordagens teórico-conceituais sobre o futebol. Na avaliação final do curso, surgiu a idéia de constituir um Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol (GIEF), para que pesquisadores, estudantes e interessados continuassem a debater e descobrir novas perspectivas analíticas para estudar o Futebol.
O grupo iniciou seus trabalhos em março de 2006 e, embora esteja em processo de consolidação, já desenvolveu várias frentes de trabalho, a destacar: participação em seminários e congressos e organização de eventos similares; realização de entrevistas com profissionais da área futebolística e pesquisadores interessados no tema, desenvolvimento de pesquisas acadêmicas em algumas das principais universidades de São Paulo, fortalecendo a possível criação de núcleos de pesquisa nessas universidades; criação de um grupo virtual para discussões e sugestões bibliográficas; produção de artigos sobre as atividades do grupo.
Apesar da diversidade teórico-metodológica proveniente das diferentes linhas de estudos e diversas áreas de formação dos componentes do grupo, uma questão era fundamental para todos: a relevância de estudar o futebol como um elemento cultural abrangente que, quando analisado, nos permite compreender amplamente a sociedade brasileira. Longe de nos fundamentarmos em teorias que vêem o Futebol apenas como instrumento ideológico ("futebol como ópio do povo" ou "fenômeno da indústria cultural"), o grupo entende o esporte como um fenômeno social total, que não só simboliza a sociedade em que se encontra, como se soma a ela.
A interdisciplinaridade e a diversidade de linhas de pesquisa presentes no grupo se traduziram em questões orientadoras para os trabalhos: Para além da premissa de que o futebol é fenômeno social total o que mais poderia haver de comum entre os participantes de modo a caracterizar um grupo e não uma mera soma de interesses? E, ao mesmo tempo, como selecionar e organizar leituras que pudessem também contemplar essa diversidade de interesses?
A experiência do Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol tem sido profundamente enriquecedora, ao colocar em debate a produção acadêmica sobre o tema, devido à considerável ampliação dos estudos sobre o esporte no campo das Ciências Humanas, em especial, realizada pela Sociologia e Antropologia. A publicação desse artigo visa elucidar não somente a importância e a pertinência de estudar o futebol, como revelar as dificuldades encontradas para vislumbrá-lo nas diferentes áreas do conhecimento científico e traçar novos desafios para o ano de 2007.
Entre esses desafios, destacamos o debate dos conceitos formulados por Huizinga (2005), que trabalhou a noção de "jogo" no singular, tratando-o como uma totalidade anterior à própria cultura, cuja essência seria o divertimento e seu significado estaria centrado em si mesmo e para seus jogadores. Seria possível haver autonomia entre o jogo e as relações sociais, como conceituou Huizinga? Essas relações não trariam significações específicas dependendo do contexto social que se encontra a modalidade lúdica? Não haveria uma relação mútua entre jogo e sociedade? Não devemos pensar em "jogos" diferentes entre si, de sociedade para sociedade?
Frente à discussão que Huizinga faz do conceito de "jogo", vale a pena retomar os trabalhos de Roberto DaMatta (1982) que, ao pensar na importância dos jogos nas diferentes sociedades, introduziu uma nova categoria conceitual para a noção de jogo: a de drama. Este seria o elemento básico da ritualização, enquanto que o rito constituiria o meio por onde uma sociedade entenderia a si própria, e o esporte como drama expressaria a identidade nacional, seus problemas, percepções, elaborações intelec